A saúde mental pelas águas do Rio Ijuhy


A saúde mental pelas águas do Rio Ijuhy


                                                                                                     Daiana Quadros[1]

                                                                                                   Iza Maria de Oliveira[2]

A história da saúde mental em Ijuí acompanha a história da saúde mental de nosso país, concomitante a implementação do SUS. O processo de construções de formas institucionais para tratamento de pessoas em sofrimento psíquico inicia nos anos de 1980, como será exposto no decorrer deste texto.

Também, acompanhando aquele histórico é possível perceber seu movimento próximo ao próprio significado da palavra que origina a cidade “Ijuhy”, rio das águas grandes ou divinas. São deslocamentos que desaguam, formam outras fontes, outros riachos, vertentes, num curso próprio. Da criação do primeiro serviço à instauração de uma Rede de Atenção Psicossocial transcorrem mais de 25 anos, ou seja, atingiu sua maioridade. Situaremos, a seguir, momentos desse movimento.

Estamos em 1967, a Secretaria Municipal de Saúde mantém um programa específico com consultas médicas e distribuição de psicofármacos para pessoas com doenças mentais.  Nesta época nenhum médico especialista em psiquiatria atuava no município ou na região. Somente na década de 80, ocorreram as primeiras implementações de serviço em saúde mental. De 1982-1985, iniciam-se os atendimentos psiquiátricos com da cedência de um profissional que era funcionário estadual ao município, Dr. Alencar de Souza. Em 1988, forma-se um grupo para estudos sobre o manejo com doentes mentais, com orientação do psiquiatra e de uma professora do Curso de Enfermagem da UNIJUÍ, professora Dra. Vera Miron (in memorim). Em agosto de 1990, ocorre o V Curso de Administração em Saúde Mental Coletiva no município, na UNIJUÍ. Este curso foi um marco na elaboração de uma proposta na área da Saúde Mental no município de Ijuí.

Em 18 de março de 1991, numa reunião entre as Secretarias Municipais e Estaduais de Saúde e Meio Ambiente, foi apresentado o trabalho “Delineamentos para estruturação da equipe de trabalho em Saúde Mental no município de Ijuí”, elaborado pela enfermeira Lisete Knorst, como conclusão do 5˚ Curso de Administração em Saúde Mental Coletiva, da Unijuí. Está profissional seria a primeira coordenadora daquele serviço.

Observa-se que no início da implementação de instituições para tratamento em saúde mental as águas da universidade e do serviço público se encontram. Após, sistemáticas reuniões daquele grupo formado além da coordenadora, Elizete Knorst, por: Lourdes da Costa, Maria Bernadete da Cunha, Mery Eickhoff e Orieta Del Frari, com poderes públicos e outras instituição de saúde, inicia-se o Serviço de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde e Meio Ambiente do município de Ijuí, junto ao Centro Municipal de Saúde, com formado pelas áreas de psiquiatria, enfermagem, farmácia e assistência social; posteriormente, serão incluídos estagiários de psicopatologia da primeira turma de Psicologia da Unijuí. Fazem parte da equipe: Dr. Antônio Carlos Amaral, Enfermeira Rosane Pause, Farmacêutica Maria Isabel, Sandra Souza (Auxiliar de Serviço Social)[3]. A enfermeira Rosane Pause assumirá a coordenação de Saúde Mental a partir de julho de 1997.

Este é o primeiro serviço institucionalizado para tratamento na saúde mental, acompanhando o processo da reforma psiquiátrica brasileira. Em 21 de maio é realizado a Primeira Conferência Municipal de Saúde.

Cabe ressaltar aqui, que encontramos na Ata de 20 de dezembro de 1994, o encaminhamento de um paciente, na época com 3 internações e 6 fugas. Hoje, em tratamento no CAPS Colmeia, há muito tempo sem internações e estável na sua psicose.

Em agosto de 1998, o Serviço de Saúde Mental inicia suas atividades em sede própria (cedida pelo Rotary Club de Ijuí), passa a se constituir como Centro de Atenção Psicossocial – CAPS I conforme Portaria MS/SAS nº 224, de 29 de janeiro de 1992, tendo como primeira coordenadora a enfermeira e psicóloga Sônia Arriens.

No ano de 2002, sob coordenação do psicólogo Nilson Heidemann, o CAPS de Ijuí foi recadastrado como CAPS II, de acordo com Portaria nº 336/GM de 19 de fevereiro de 2002 e a Portaria nº 189, de 20 de março de 2002, direcionado para o atendimento a adultos portadores de transtorno mental grave e persistente. Contando com a seguinte equipe: Dr. Antônio Amaral (psiquiatra), Rosane Pause (enfermeira), Psicólogos: Iza Maria de Oliveira, Cirlei Schroer e Aurete Brum; Débora Nascimento (Terapeuta Ocupacional), Lourdes Costa e Sandra Souza (auxiliares de Serviço Social), Maria Isabel Bertazzon (farmacêutica).

Posteriormente, passou a chamar-se CAPS II Colmeia, o qual passa a oferecer atendimento clínico e ambulatorial às pessoas em sofrimento psíquico do município e tem como principal objetivo proporcionar à comunidade atenção na área de Saúde Mental, promovendo a socialização do indivíduo em sofrimento psíquico, possibilitando-lhes o desenvolvimento de uma vida independente e/ou produtiva, bem como do exercício pleno de sua cidadania.

A equipe do CAPS II Colmeia, que se mudou de instalações físicas após 17 anos, atualmente é formada por: 03 Médicos Psiquiatras, 01 Médico Clínico Geral, 02 Enfermeira, 02 Técnicas de Enfermagem, 01 Assistente social, 05 Psicólogos, 01 Terapeuta Ocupacional, 01 Nutricionista, 02 Serviçais, 01 Auxiliar Administrativo.

Desde 2004, se iniciam o processo de constituição de outras instituições para tratamento na saúde mental:  CAPi começa a realizar atendimentos a crianças e adolescentes com até 25 anos incompletos, portadores de transtorno mental grave e persistente, dependentes de álcool e outras drogas, administrado pelo Hospital Bom Pastor.

CAPS I Bom Pastor, inaugurado em 2009, realizou atendimentos a adultos nas áreas de depressão moderada, dependência de álcool e outras drogas, tendo como objetivo estruturar um serviço ambulatorial de atenção diária - Centro de Atenção Psicossocial - CAPS I, para atendimento de pessoas com transtornos mentais moderados e persistentes residentes em Ijuí, com enfoque aos usuários de álcool e outras drogas e ainda pessoas com depressão moderada. Pela intensa demanda na área da dependência química, no ano de 2014 o CAPS I transformou-se em CAPS II AD e os usuários portadores de doença mental leve, cuja patologia não esteja relacionada a álcool e outras drogas, se encontram sem espaço adequado/definido para atendimento na rede de atenção em saúde mental, seja na Atenção Básica e/ou serviços especializados e estão sendo encaminhados para estes serviços. Este fato tem gerado uma demanda excessiva nos serviços especializados e uma dificuldade no acolhimento e tratamento desses usuários na Atenção Básica, criando a necessidade de um ambulatório de saúde mental, que possa realizar o gerenciamento de toda a RAPS - Rede de Atenção Psicossocial.

Também em 2009, o poder executivo por meio do município de Ijuí instituiu a Coordenação Municipal de Saúde Mental, Sra. Jussara Garay e esta coordenação implantou alguns dispositivos para a organização da rede de atenção, entre eles, a Equipe Matricial e a Central Municipal de Regulação de Leitos. No ano anterior, sob coordenação de Paulo Jusiaki, é implementado a ASSAMI/Casa AMA, espaço de formação para a cidadania, através de vivências em grupos, de socialização de experiências e de realização de atividades conjuntas. Este serviço é inspirado no modelo de Trento, da Itália.

Em 2013, assumindo a Coordenação Solange Piovesan, houve a aprovação e implementação do Projeto Formativo da RAPS, a elaboração do projeto da Lei de Saúde Mental do município e o projeto de construção do novo CAPS Colmeia. Projetos que foram dados seguimentos na coordenação seguinte de Cristiano Rasia.

Como é possível constatar, acompanhamos um processo significativo de criação e implementação de serviços institucionais, com uma diversidade de formações e filiações clínicas e assistenciais. Isso é proporcional ao acréscimo substancial de formas de sofrimento psíquico na nossa contemporaneidade. Pois, as psicopatologias se constituem, fundamentalmente, pela forma como vivemos. O sofrimento psíquico é uma forma de manifestação e expressão da condição humana, apresentando suas especificidades em cada contexto histórico, cultural, econômico e social.

Diante de formas de vida que produzem tantos sofrimentos psíquicos, faz-se necessário uma Rede de Serviços de Saúde Mental, cada vez mais, se torne sólida. Uma Rede que possa produzir novas fontes que desaguam em novas formas de viver. Pois, somente águas em movimentos movem moinhos!



[1] Assistente Social. Coordenadora da Saúde Mental em Ijuí e do CAPS Colmeia

[2] Psicóloga, Psicanalista. Doutora em Psicologia Clínica. Profissional do CAPS Colmeia.

[3] Sobre este serviço, um importante trabalho foi realizado. Trata-se da Dissertação de Mestrado “Organização do trabalho em saúde mental em um serviço ambulatorial público em saúde”, de Vera Miron (Ribeirão Preto, USP/Escola de Enfermagem, 1993). Neste estudo, se encontra, também, uma exposição rigorosa sobre as primeiras formas de atendimento em saúde mental no município de Ijuí.


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